O Clã das Adagas Voadoras
(Shi Mian Mai Fu, China, 2004)


Sei que esta resenha é sobre o filme O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS, mas me é muito difícil não falar de HERÓI ao me referir a esta segunda investida de Zhang Yimou nos filmes de artes marciais.

Não falo isso pelo fato de ter assistido aos dois filmes quase em seqüência, já que, apesar de terem dois anos de diferença em termos de produção, foram lançados aqui no Brasil com a diferença mínima de duas semanas.

Tampouco me proponho a comentar os filmes em conjunto para compará-los de forma "pejorativa" no sentido de ressaltar a supremacia de um sobre o outro, embora meu coração bata um pouco mais forte por HERÓI. O que realmente quero mostrar aqui é a quase impossibilidade de dissociar as duas obras. Aliás, vê-las em seqüência me foi muito útil para comprender isso. HERÓI e O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS são filmes opostos e paradoxalmente complementares. Talvez a melhor explicação para tal fato seja o conceito oriental de Yin e Yang, que simbolizam os opostos (luz/trevas, feminino/masculino, lua/sol,etc.), mas que prega que nem tudo é completamente Yin e nem tudo é completamente Yang, e que não há como exisitir um sem o outro, estando esses opostos em complementaridade. È neste sentido que os dois filmes de Yimou se encaixam um no outro.

Durante o final da Dinástia Tang, no ano de 859, muitos grupos revolucionários levantaram-se contra o governo corrupto, dentre eles havia o famigerado Clã das Adagas Voadoras. Dois agentes do governo, Capitão Jin (Takeshi Kaneshiro) e Capitão Leo (Andy Lau) descobrem a existência de uma habilidosa dançarina cega na famosa Casa das Peônias, Mei (Zhang Ziyi, de HERÓI e O TIGRE E O DRAGÃO), que pode ser a filha do antigo líder do clã. O plano deles é desmascarar a moça, prendê-la, para que depois um deles, Jin, finja soltá-la e, assim, levá-la de volta ao clã. Com isso, eles pretendem descobrir a localizaçõa da sede dos rebeldes e quem é seu novo líder. Mas eles não contavam com a possibilidade de Jin e Mei se apaixonarem no decorrer da viagem.

Em suma, todos os elementos existentes em HERÓI estão também presentes em CLÃ. Têm-se a luta por uma causa nobre e pelo bem maior de um povo, e, também, temos uma história de amor (Em HERÓI, o casal é composto por Neve que Voa e Espada Quebrada). A primeira diferença/ complementaidade entre os dois filmes já reside aí, na prevalência de um determinado enfoque. Em HERÓI, a questão da luta pela causa se sobrepõe à história de amor. Em CLÃ, o romance dos protagonistas é o que mais importa.

Mas não é apenas nesse aspecto que Yimou constrói filmes espelhados. Ela usa figurinos, cenários, coreografia das lutas, fotografia, enfim, praticamente todos os elementos da construção fílmica pra enfatizar essa relação simétrica entre suas duas recentes obras. Se em HERÓI praticamente todas as roupas são lisas e monocromáticas, em CLÃ temos suntuosas roupas de ricas estampas (especialmente na seqüência da Casa das Peônias), mesmo quando os protagonistas estão em fuga, as estampas não desaparecem. Talvez a exceção seja apenas o "uniforme" dos membros do clã. Em HERÓI, os cenários são quase todos abertos e praticamente sem vegetação, ressaltando o deserto. Em CLÃ, a primazia está na floresta e nos campos floridos.

E mesmo na construção das seqüências de lutas, existe esse paralelismo. Em HERÓI, elas se configuram como um balé constante e harmonioso, quase uma fantasia lírica, dotadas de suaves e delicados movimentos. Esses aspectos se mantém no CLÃ, especialmente na sequência da Dança dos Ecos e na luta entre os bambuzais, contudo, Yimou imprime agora maoir realismo nestas cenas, principalmente na última batalha do filme. E se em HERÓI vemos apenas uma única gota de sangue durante todo o filme, no CLÃ o sangue aflora com mais facilidade, mas sem exagero.

Esta comparação entre os filmes não é para dizer que O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS não é um filme que se sustenta por si só, mas apenas para apontar essa provável intencionalidade de Yimou em fazer obras que se complementam. Acredito que se atentando a esses aspectos, tanto HERÓI quanto o CLÃ adquirem uma grandiosidade maior do que aquela que já possuem se vistos isoladamente.

Como já disse, O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS também é por si só um excelente filme. Com personagens fortes e carismáticas, atuações excepcionais, seqüências bem feitas e belas de se ver, fotografia e figurinos exuberantes. A seqüência final, em especial, uma explícita homenagem aos filmes de samurai do mestre Kurosawa. é particularmente marcante, dada principalmente a seu forte apelo dramático, e por que não dizer, trágico.

Talvez o único pecado do filme seja ter deixado o clã do título tão em segundo plano. Depois de uma série de revelações, algumas surpreendentes e outras um tanto óbvias, as conseqüências do grande plano de Jin e Leo para derrubar o clã e os resultados dessa grande virada são meio que deixados de lado e se resumem a uma única e isolada cena que pode até passar despercebida para o espectador menos atento.

Excetuando-se essa pequena ressalva, O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS pode ser considerado um dos melhores filmes do gênero, cinema com C maiúsculo e um equilíbrio quase perfeito entre arte e entretenimento.

     

Direção:
Zhang Yimou

Com:
Zhang Ziyi, Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Song Dandan

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