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Cazuza:
O Tempo Não Para
(Brasil, 2004)
Verdade
seja dita: não sou fã de Cazuza, nunca fui e não
me imagino me tornando um. Não nego seu talento mas suas
músicas simplesmente não se encaixam no meu gosto
musical. E como dizem, gosto não se discute, se lamenta.
Agora, nessa resenha em hora nenhuma falo de Cazuza como pessoa
ou como música. Falo como filme. O filme pode ser lendário
de um artista medíocre (quem não viu Lou Diamond Phillips
interpretando Richie Valens em La Bamba?) ou medíocre
sobre um artista lendário (onde este se encaixa).
Até mesmo para quem nunca foi fã de Cazuza é
fácil não se surpreender com o filme que, teoricamente,
conta a trajetória do cantor desde o início de sua
carreira em 1981 até sua morte nove anos depois. Ao invés
de se concentrar em aspectos da vida do cantor que sejam desconhecidos
do grande público, o filme mostra de forma romanceada sua
relação com os membros de sua banda, as drogas e a
família. Se por um lado Cazuza mostra-se sempre como um revolucionário,
querendo sempre romper barreiras, por outro percebe-se um rapaz
mimado, filho de pais super-protetores e que conseguiu sua grande
chance de forma quase nepotista, ao invés de baseada em seu
talento. Afinal, seu pai João Araújo, interpretado
com primor por Reginaldo Faria, era o presidente
da gravadora Som Livre, onde arrumou um emprego para o filho. Sua
mãe, Lucinha, vivida pela sempre talentosa Marieta
Severo, acaba se mostrando condescendente aos péssimos
hábitos do filho, cujo talento era realmente inegável
e foi mais que comprovado ao longo de sua carreira.
Mas
o que seria interessante ver em CAZUZA: O TEMPO NÃO
PÁRA? O que nós não vimos. O filme
perde boa parte de seu tempo de projeção mostrando
shows do Barão Vermelho. Se mostrassem imagens reais, como
fizeram com o Rock 'n' Rio, aí sim. Mas não, mostram
os atores dublando as músicas da banda. Em certos momentos
isso cumpre uma função como mostrar a forte amizade
entre Cazuza e Frejat apesar das discussões constantes entre
os dois. Mas na maior parte do tempo, apesar de serem feitos usando
uma estética extremamente anos 80 e que simboliza muitíssimo
bem a cena do rock da época, ainda assim é uma perda
de tempo. A promiscuidade do cantor que literalmente visitava construções
e pagava operários por favores sexuais é deixada de
lado.
O
show fica mesmo nas mãos do Daniel de Oliveira.
Não só pelo filme se concentrar apenas nele, mas por
sua atuação sincera mesmo que às vezes um pouco
política. Responsável por isso é a direção
de Sandra Werneck e Walter Carvalho
que mostram o cantor mais como um ícone, sempre poeta e galante,
do que como um ser humano. Ou seja, mesmo quando ele não
tem a menor razão em atitudes que toma, suas respostas são
sempre convincentes e o filme acaba dando razão para ele
em tudo. Como se pregasse um "Cazuza morreu mas viveu intensamente"
sendo que mesmo em entrevistas dadas na época em que já
estava sofrendo extremamente com os efeitos da AIDS, o cantor se
mostrava, de certa forma, arrependido.
CAZUZA:
O TEMPO NÃO PÁRA não é um filme ruim.
É apenas um filme que parece ter sido feito por fãs
e por isso não deixa grandes impressões. Fatos curiosos
e importantes para a formação do personagem, como
de onde saiu a influência da MPB em suas canções,
é deixada de lado e colocada como uma simples vontade de
variar. Um cantor que durante toda sua vida teve diversos artistas
frequentando sua casa devido a posição de seu pai
na Som Livre. Por sorte, Cazuza é um personagem curioso e
atraente. E por mais que a direção de Werneck e Carvalho
seja competente e os atores se mostrem à vontade em seus
papéis, um pouco mais de ousadia e pesquisa não fariam
mal ao roteiro. Que funciona. Tem bons momentos. Mas o interessante
em um filme biográfico é conhecer o personagem e não
simplesmente rever o que já vimos.
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Direção:
Sandra Werneck e Walter Carvalho
Com:
Daniel de Oliveira, Marieta
Severo, Reginaldo Faria, Emílio de Melo, Andréa Beltrão,
Leandra Leal
Cotação:
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