| O
Castelo Animado
(Hauru no ugoku shiro/Howl's Moving Castle, Japão,
2004)
Hayao
Miyazaki é considerado um dos maiores animadores
da atualidade. Responsável por tesouros cinematográficos
como MEU VIZINHO TOTORO, LAPUTA, A PRINCESA MONONOKE e o merecidamente
oscarizado A VIAGEM DE CHIHIRO,
Miyazaki é um daqueles casos cada vez mais raros no meio,
capaz de unir histórias sensíveis e inteligentes a
uma animação primorosa e impactante.
Diana
Wynne Jones é uma das mais conceituadas autoras
infantis da literatura inglesa. Com mais de vinte anos de carreira,
foi aluna de J.R.R. Tolkien e professora de J.K. Rowling. Seus livros
estão sempre nas listas dos mais vendidos e lidos entre as
crianças inglesas, e já foram traduzidos em diversos
idiomas, inclusive o português.
Separados,
esses artistas representam a excelência em cada uma das áreas
em que atuam. Portanto, o que podemos esperar de uma obra que une
a criatividade de Miyazaki e o fabuloso texto de Jones? Nada menos
que algo marcante.
E
é exatamente isso que O CASTELO ANIMADO
é: uma pequena obra-prima.
Feito
praticamente todo em animação tradicional, com pouquíssimos
e discretíssimos recursos de computação gráfica,
o filme nos mostra que ainda é possível inovar e trazer
beleza e encantamento através do uso de técnicas tradicionais.
Basta um pouco de esforço, empenho e talento.
As
imagens sabem ser grandiosas quando necessário, aterradoras
em outros momentos, e por vezes até mesmo minimalistas.
Mas,
como um bom filme não se sustenta apenas por belas imagens,
Miyazaki traz novamente aquela que é a marca registrada de
seu estúdio, o Ghibli: uma excelente e inteligente história,
com personagens cativantes e complexos, sem o típico maniqueísmo
de muitas animações e filmes (sejam americanos, sejam
japoneses ou brasileiros) voltados para o público infantil.
Aliás,
chamar O CASTELO ANIMADO ou qualquer animação do Estúdio
Ghibli de infantil é restringir injustamente suas obras.
A forma sofisticada e profunda como o estúdio trata temas
diversos como amor, relações humanas, medo, ciúmes,
guerra, relação homem-natureza no decorrer de todas
as suas produções, torna seus filmes acessíveis
e também obrigatórios a pessoas de qualquer idade.
Mas,
é claro, que no caso de O CASTELO ANIMADO não podemos
deixar de mencionar o excelente trabalho de Diana Winne Jones, cujos
textos fantásticos tem o mérito de trazer também
histórias de alta qualidade para os seus leitores. Isso porque
a autora britânica faz (e muito bem) aquilo que muitos escritores
infantis se esquecem de fazer: trata com respeito e igualdade seus
leitores. Jones sabe que crianças são inteligentes
e não simplifica as coisas, ela as coloca para pensar. Crianças
não gostam de ser tratadas como estúpidas e reconhecem
o mérito de quem sabe ouvi-las e falar com elas com deferência
e sensibilidade. Por isso os textos de Jones são tão
queridos.
E por isso que os filmes de Miyazaki também o são
(pelo menos no Japão).
Portanto,
o que o diretor fez em O CASTELO ANIMADO foi potencializar o excelente
material que tinha em mãos e adaptá-lo para a linguagem
cinematográfica, mas ao mesmo tempo imprimindo na obra características
particulares do diretor: belíssimos cenários surrealistas,
personagens complexas, criaturas estranhas e fascinantes.
Em
linhas gerais, O CASTELO ANIMADO mostra a história da jovem
Sophie, uma jovem chapeleira com alma de velha, que acaba esbarrando
com o feiticeiro Howl, dono do castelo animado do título.
Esse encontro casual faz com que Sophie se torne vítima da
Bruxa das Terras Abandonadas, que amaldiçoa a garota, transformando-a
em uma velha de 90 anos.
Sem
saber o que fazer para quebrar o feitiço, Sophie acaba se
tornando faxineira do feiticeiro Howl, e vem a descobrir que ele
também é vítima de uma misteriosa maldição
que o liga ao demônio do fogo chamado Calcifer, responsável
pelo funcionamento do castelo. E para quebrar a própria maldição,
Sophie precisa, antes, descobri como quebrar a que se debateu sobre
Howl.
Como
se Sophie não tivesse problemas demais, o mundo em que vivem
está mergulhado em uma guerra terrível que envolve
tanto pessoas comuns quanto os mais poderosos feiticeiros daquele
lugar.
Tal
mundo lembra um cruzamento da Inglaterra do séc. XIX com
os típicos reinos mágicos de contos de fadas tradicionais,
mas ao mesmo tempo apresenta um realismo surpreendente. Miyazaki
não tem medo de mostrar cenas mais fortes da guerra (para
um filme voltado a um público infantil, é claro).
Os bombardeios às cidades em nada ficam a dever a seqüências
de filmes de guerra, lembrando também as cenas de bombardeios
a Londres durante a Segunda Guerra Mundial.
É
simplesmente fascinante a capacidade do diretor de alternar momentos
aterrorizantes como as cenas da guerra, com outros de pura aventura,
intercalados por drama e um humor sutil e inteligente.
Mas,
talvez o que seja mais extraordinário no filme (e também
recorrente na obra do estúdio Ghibli) é o modo como
as personagens são retratadas. Ninguém, nem mesmo
os vilões, é completamente bom ou ruim. Até
os protagonistas, Sophie e Howl, possuem seus defeitos. Sophie pode
ser forte e determinada em muitos momentos, mas também é
insegura e tímida. Alguém com medo de viver a vida.
Já Howl possui boas intenções e até
uma pureza de espírito, mas também é um jovem
vaidoso, egoísta e inconseqüente.
E
se não bastassem todos esses elementos (belos e detalhados
cenários, animação primorosa, enredo e personagens
bem construídos e desenvolvidos) para tornar esse anime um
dos filmes mais memoráveis de 2005, ainda temos uma trilha
sonora maravilhosa e envolvente, que, por vezes, parece preencher
completamente a tela, integrando-se perfeitamente à seqüência
mostrada
Enfim,
O CASTELO ANIMADO é uma lição de cinema em
todos os aspectos e mais um comprovação do talento
de Hayao Miyazaki e dos Estúdios Ghibli, que mereciam, no
Ocidente, um reconhecimento muito maior do que o atual.
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