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Carandiru
(Brasil, 2003)
Por: Kas
Na
sequência inicial de Carandiru, novo longa de Hector
Babenco, um preso ameaça outro de morte, por este ter assassinado
seu pai. O acusado admite o crime, mas ao mesmo tempo conclui que
as coisas não são como parecem. Todo o embate é
mediado por Nego Preto (Ivan de Almeida, excelente), um ladrão
e assassino eventual (como a maioria dos presidiários do
filme) que consegue impor um pouco de ordem no caos que é
a vida no Carandiru. A tensa seqüência é toda
filmada através de grades e é testemunhada pelo Dr.
Dráuzio Varella, em seu primeiro dia de trabalho numa campanha
de prevenção a AIDS no presídio.
Varella
narraria sua experiência no best-seller Estação
Carandiru (150 semanas na lista dos mais vendidos, o que deve
aumentar ainda mais com o lançamento do filme), um apanhado
de pequenas histórias registradas pelo médico, que
as transformou num poderoso retrato da vida em cárcere.
Quando
Hector Babenco, um ex-paciente de Dráuzio Varella, leu o
tomo escrito pelo médico, ficou fascinado com a humanidade
que Varella conseguiu imprimir nos presos, criminosos condenados
a passarem boa parte da vida atrás das grades por crimes
muitas vezes hediondos, outras apenas casuais. Imediatamente, e
para a surpresa do doutor tornado escritor, o cineasta afirmou que
aquele seria seu próximo filme.
Babenco
é fascinado por personagens excluídos. Desde seu primeiro
longa-metragem, O Rei da Noite (1975), o diretor mostra essa
fascinação - e principalmente, compaixão -
pelos protagonistas que vivem à margem da sociedade. Em Lúcio
Flávio, O Passageiro da Agonia (1977), Babenco traduz
para o cinema, na pele de Reginaldo Farias, a história real
do famoso criminoso, acentuando o caráter transgressor do
personagem. Com Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981), que revelou
o cineasta internacionalmente, Babenco mostra com ternura e violência
o mundo de meninos de rua e prostitutas. Em O Beijo da Mulher-Aranha
(1985), os protagonistas são dois companheiros de cela -
um homossexual e um preso político - numa prisão sul-americana.
O longa abriu as portas de Hollywood para Babenco. No filme seguinte,
Ironweed (1987), Hector Babenco usa verba e atores hollywoodianos
(Jack Nicholson e Meryl Streep, ambos nomeados ao Oscar) para realizar
um retrato intimista das vítimas da grande depressão
americana. Nicholson faz um bêbado que é atormentado
por fantasmas do passado, entre eles o do próprio filho,
morto ao cair de seus braços quando bebê. O filme,
angustiante, depressivo e perturbador, afundou nas bilheterias americanas
e foi injustamente malhado por vários críticos. Isto
não impediu que, em seu projeto seguinte, o cineasta não
retomasse o tema do excluído, na superprodução
Brincando nos Campos do Senhor (1991). Tom Berenger faz Lewis
Moon, um piloto descendente de nativos americanos que se identifica
com os índios de uma tribo amazônica, a ponto de questionar
sua identidade e retomar suas origens indígenas. Logo, porém,
a tribo será cometida de uma epidemia mortal de gripe, ao
entrar em contato com missionários americanos. Moon então
estará novamente à deriva. Este filme belo e subestimado,
que traz ainda no elenco John Lithgow, Kathy Bates, Aidan Quinn,
Daryl Hannah e Tom Waits, também não agradou ao público
e rompeu os laços de Babenco com o cinema americano. Entre
Brincando nos Campos do Senhor e o belo Coração
Iluminado (1998), o diretor enfrentou um câncer linfático
que quase o matou e tomou pela primeira vez contato com o universo
de Carandiru.
Além
das óbvias possibilidades dramáticas permitidas por
personagens à margem da sociedade, essa identificação
de Babenco com o tema permite outras suposições, mais
ligadas a sua condição de "brasileiro e cidadão
do mundo", nas palavras do próprio. Filho de judeus,
nascido na Argentina, de onde saiu para trabalhar como assistente
de produção na Itália e para onde foi impedido
de voltar por não ter servido ao exército, o cineasta
encontrou refúgio no Brasil. Mas mesmo naturalizado brasileiro,
ele nunca foi completamente aceito enquanto artista pelos seus colegas
e pela própria mídia. Quando Central do Brasil
conseguiu indicações ao Oscar em 1999, toda a imprensa
alardeou o feito histórico de Walter Salles e Fernanda Montenegro.
Poucos se lembraram que em 85, quando as conjunturas eram bem menos
favoráveis ao cinema pátrio, Hector Babenco conquistou
quatro indicações ao prêmio máximo do
cinema americano, com O Beijo da Mulher-Aranha. E não
indicações quaisquer e sim em categorias consideradas
principais: filme, direção, roteiro e ator (William
Hurt). Em suma: o filme não foi jogado no gueto que é
a categoria de filme estrangeiro e sim julgado à altura dos
demais concorrentes daquele ano, como Entre Dois Amores e
A Cor Púrpura. Mesmo tendo sido financiado e realizado
por equipe brasileira, a mídia nunca considerou O Beijo
da Mulher-Aranha um filme nacional, simplesmente por ter sido
falado em inglês e contado com um ator americano no papel
principal. Ninguém acusou filmes medíocres como Bossa
Nova e Bela Donna de não serem filmes brasileiros
por estes mesmos motivos. Quando lançou Coração
Iluminado, o diretor enfrentou uma recepção gelada
dos críticos e um público irrisório no país.
Considerando estes fatores, faz sentido que o projeto seguinte do
cineasta fosse exatamente Carandiru.
Levar
às telas o livro de Varella pode parecer uma ousadia, já
que este não possui o que podemos chamar de unidade dramática;
são na verdade várias histórias contadas ao
médico ou vivenciadas por ele no período em que trabalhou
no presídio. Mas, vendo por outro lado, este é um
universo que Babenco conhece bem e retratou maravilhosamente em
Lúcio Flávio e Pixote. Ao mesmo tempo,
é um livro imensamente popular, que querendo a mídia
ou não, chamaria a atenção do público
ao ser transposto para o cinema. A impressão que fica é
que o cineasta viu aí a possibilidade de reencontrar o sucesso
de público, assim como o respeito da crítica. Daí,
o projeto deixa de ser de risco e passa a ser um passo seguro na
carreira do realizador.
Esta
segurança é o maior problema de Carandiru,
o filme. Babenco deixa claro que se não se deixou desafiar
pelo projeto e investe no caminho mais fácil e menos fascinante,
exatamente o que não se esperava de alguém como ele.
O filme reproduz fielmente algumas passagens da obra original, recria
livremente outras e faz o mesmo com os personagens. E faz isso da
maneira mais prosaica, sem imaginação. Como resultado,
temos no filme uma coleção de caricaturas do que se
imagina ser um presidiário: temos o ladrão de bom
coração que não quer que seus filhos sigam
seus passos, o traficante que possui duas mulheres, o assassino
frio que tem uma crise de consciência, os dois amigos de infância
que virão a se confrontar na prisão, o bandido que
acumula as funções de cozinheiro da prisão
e mediador entre os presos, o travesti e o ladrão que se
apaixonam. Todas essas histórias são jogadas na tela
de forma até mesmo desleixada, apesar do esforço do
elenco em emprestar humanidade aos seus papéis. O mais prejudicado
é a própria figura central, a do médico Dráuzio
Varella (vivido por Luis Carlos Vasconcelos, numa interpretação
banal). Ao contrário do livro, em que ele vai sendo transformado
pelas histórias e situações que vai vivendo,
no filme é um mero espectador, sem envolvimento algum com
o que acontece ao seu redor. O público compartilha desta
apatia: Carandiru, apesar dos cuidados de produção,
é burocrático e medíocre, uma experiência
que nada acrescenta. É muito pouco para um cineasta do calibre
de Hector Babenco.
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Direção:
Hector Babenco
Roteiro:
Hector Babenco, Fernando Bonassi e Victor Navas, baseado no livro
de Dráuzio Varella
Fotografia:
Walter Carvalho
Música:
André Abujamra
Com:
Luis Carlos Vasconcelos, Ivan de Almeida, Ailton Graça, Gero
Camilo, Wagner Moura, Milton Gonçalves, Rodrigo Santoro,
Lázaro Ramos, Caio Blat. |
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