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Brilho
Eterno de uma Mente Sem Lembranças
(Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004)
Para
o grande público, BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM
LEMBRANÇAS é o novo filme de Jim
Carrey. Para mim, sempre foi o novo filme de Charlie
Kaufman.
Kaufman
talvez seja um dos mais inteligentes, inventivos e talentosos roteiristas
americanos da atualidade. É um daqueles casos raros em que
o escritor consegue impor sua marca nos filmes que escreve independente
de quem os está dirigindo.
Seja
Spike Jonze, seja George Clooney, seja Michel Gondry
a pessoa por trás das câmeras, parte do filme continua
sendo sempre de Kaufman.
Na
sua primeira parceria com Jonze, Kaufman nos deu o "tresloucado"
Quero Ser John Malkovich, que brincava de forma nada convencional
com o desejo secreto de todos nós de estarmos na pela de
alguém famoso. No caso do filme, literalmente.
Em
Adaptação, Jonze e Kaufman criam um filme
totalmente metalingüístico sem ser explicitamente metalingüístico,
tirando sarro de todos os clichês tanto dos filmes "cabeça"
quanto do cinema pipocão.
Já
em Confissões de uma Mente Perigosa, embora não
seja o melhor filme de Kaufman, talvez um pouco pela inexperiência
de Clooney na direção, descobrimos que não
era a parceria com Jonze que tornava o roteirista tão especial.
Ele tinha luz própria capaz de iluminar seu próprio
caminho.
Luz
que só fez aumentar agora com BRILHO ETERNO DE UMA MENTE
SEM LEMBRANÇAS.
No
filme, o casal Joel (Carrey) e Clementine (Kate Winslet)
vivem um momento de forte crise na relação. Joel é
tímido, reservado, metódico. O tipo de pessoa que
tem medo de viver e ainda deseja desesperadamente encontrar alguém
que consiga retirá-lo de sua concha. Clementine é
quase o oposto: extrovertida, impulsiva, espontânea, quer
viver intensamente cada segundo de sua vida. Mas por trás
de toda essa fachada de mulher independente, tudo o que ela deseja
é alguém capaz de amá-la como ela é.
Enfim são duas carências que se complementam, mas ao
mesmo tempo se chocam. E ao chegar no ponto em que o choque se torna
maior que o conforto, Clementine decide abandonar Joel.
Mais do que abandonar, ela decide contratar um especialista para
apagar todas as lembranças que ela tem do namorado. Seria
como se o relacionamento nunca tivesse acontecido. Um suposta oportunidade
para uma nova vida.
Joel
descobre o que Clementine fez e decide contratar a mesma empresa
para remover a namorada de suas lembranças. Contudo, no meio
do processo, ele descobre que não quer mais esquecer a namorada,
apesar de toda dor causada pelo relacionamento. Começa,
então, a luta de Joel, preso na sua própria mente,
para impedir que os médicos façam sua Clementine sumir.
Por
trás de um argumento que poderia nos levar a acreditar estarmos
assistindo a um filme de ficção ou a uma comédia,
temos uma história de amor. Não uma história
de amor típica de Hollywood, cheia de suspiros e paixões
avassaladoras, mas sim uma história de amor tal qual ocorre
na vida real. As dificuldades de comunicação, as discussões,
a dor, a insegurança, o conforto, a ternura, a consciência
de que o parceiro não é perfeito e ainda assim o desejo
de que fosse.
Tais elementos tornam Joel e Clementine tão plausíveis
e palpáveis que a identificação com eles é
imediata, nos fazendo desejar que, de algum modo, eles encontrem
a felicidade, mesmo que seja uma felicidade torta.
Kate
Winslet prova mais uma vez que é uma excelente atriz quando
consegue escolher um bom papel. É nas personagens dela e
de Carrey que o filme se sustenta, apesar da competência do
elenco de apóio (Mark Rufallo, Kirsten
Dunst, Elijah Wood, Tom Wilkinson).
Aliás,
o grande achado do filme foi colocar Winslet como a parte extrovertida
do casal. Um Jim Carrey incomumente contido surpreende naquele que
talvez seja seu melhor papel desde O Show de Truman. E,
embora Carrey seja um ótimo comediante sendo injusto compará-lo
ao insosso Adam Sandler, talvez BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS
tenha sido para Carrey o que Embriagado de Amor foi para
Sandler.
O filme
se passa em dois planos distintos: o pano da realidade no qual trabalham
os médicos para apagarem a mente de Joel, e o plano das lembranças
da personagem.
Essa divisão em dois planos é apenas um artifício
para se contar a história de Joel e Clementine, pois a operação
de limpeza das memórias do personagem de Carrey nos transporta
diretamente para a reconstrução dos momentos da vida
do casal.
É
um flashback sem ser necessariamente um flashback no sentido convencional.
Na
realidade, talvez o filme inteiro seja uma enorme desculpa para
se discutir a superficialidade e a futilidade das relações
deste nosso estranho mundo pós-moderno, no qual as pessoas
sentem medo de se envolverem e de sofrerem, buscando apenas o prazer
nos relacionamentos, o fugaz, o momentâneo. Amor "fast
food". Se não deu certo, existe o divórcio,
não? Ou no caso do filme, basta-se apagar a existência
do ex-amado da mente, em uma quase cirurgia plástica cerebral.
O que
Kaufman nos diz em BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS
é que amar nunca é fácil, viver nunca é
fácil. E não é esquecendo o lado triste da
vida que a tornamos melhor, mas sim fazendo exatamente o oposto:
sofrendo e errando, e assim aprendendo e nos tornando mais fortes
e mais sábios no decorrer do processo.
Se
costumam dizer que é preferível amar e sofrer do que
nunca ter amado, Kaufman diz um pouco mais: podemos apagar as memórias
da mente, mas nunca os sentimentos da alma.
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Direção:
Michel Gondry
Com:
Jim Carrey, Kate Winslet,
Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Elijah Wood
Cotação:
  
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