As Bicicletas de Belleville
(Les Triplettes de Belleville, França/Bélgica/Canadá/Inglaterra, 2003)

Há um tempo atrás, minha prima, que trabalha com animação me mostrou na Internet toda empolgada as imagens de uma animação francesa que ela havia descoberto. Apesar de ter achado as imagens muito bonitas, não dei maiores atenções, pois achei que dificilmente veria aquele desenho, afinal, raras são as animações européias (exceto os Asterix e Tintins da vida) chegam nos cinemas ou vídeos daqui. Sendo assim, acabei esquecendo do ocorrido.

Eis que um belo dia, me deparo com o anúncio de que AS BICICLETAS DE BELLEVILLE estava concorrendo a dois Oscars. Surpresa, pensei comigo mesma: Peraí, eu conheço esse filme! Pouco, mas conheço.

Comecei então a ver alguns artigos e reportagens sobre AS BICICLETAS DE BELLEVILLE. E quanto mais eu lia ou via imagens do filme, mais e mais ia crescendo a vontade de vê-lo. Muito por curiosidade que por qualquer outro motivo.

Acostumada a animações norte-americanas ou japonesas, as poucas experiências que tive com animação européia não foram exatamente das mais animadoras (desculpem o trocadilho infame), com algumas poucas exceções. E assim, num misto de expectativa e de receio com o que me aguardava, cheguei ao cinema, e acabei me deparando com um filme completamente diferente do que havia imaginado. AS BICICLETAS DE BELLEVILLE se revelou uma agradabilíssima surpresa. O desenho só pode ser chamado de fenomenal.

A começar pelos aspectos técnicos. A animação é praticamente perfeita e mistura técnicas de animação em 3D e 2D ("convencional"), mesclando a elas algumas cenas de filmes e fotografias. É plasticamente fascinante. Impossível descrever em palavras, pois é uma experiência sensorial única.

Já quanto a história, o que posso dizer senão que é de um delicioso nonsense que há tempos não via em um desenho animado longa metragem.

Em linhas gerais, a história é a seguinte: a velha Souza cria seu netinho após a morte dos pais do menino. Tentando animá-lo, ela tenta os mais diversos estratagemas, até que descobre sua paixão pelo ciclismo. Alguns anos depois, o neto, agora adulto, treina para o Tour de France, uma grande corrida de ciclismo na França. Mas durante o percurso ele é seqüestrado, juntamente com dois outros competidores, por dois gangsters e levado para Belleville, para competir em corridas de bicicletas clandestinas. Junto com seu fiel cão Bruno, Souza cruza o oceano atrás do neto e se encontra com as Trigêmeas de Belleville, cantoras famosas nos anos 30, mas agora em decadência (a história aparentemente se passa nos anos 50 ou pouco depois disso). Juntamente com essas simpáticas e excêntricas velhinhas, Souza vai resgatar seu neto.

A história em si não tem nada de excepcional, mas como uma professora minha costuma dizer, não é a história propriamente dita que importa, mas o modo como você a conta, prendendo a atenção do espectador. E isso AS BICICLETAS DE BELLEVILLE faz muitíssimo bem.

É difícil acreditar, mas o filme inteiro praticamente não tem nenhum diálogo. Porém isso não o torna chato ou incompreensível, muito pelo contrário. Você entrende perfeitamente cada nuance da história.

Sua força está em suas imagens, a começar pela caracterização física das suas personagens, que revela muito sobre suas personalidades. O exemplo mais gritante disso são os gangsters, sempre vestidos de preto ou marrom bem escuro, com ombros largos, praticamente quadrados, quase como um bloco compacto e duro.

O nonsense que permeia toda a história também é outro ponto que nos ajuda a envolver completamente com o filme. Dá para imaginar quatro velhinhas e um cachorro enfrentando homens armados da máfia francesa usando praticamente apenas frigideiras e chapéus? Ou então, uma velhinha atravessando um oceano em um pedalhinho? E ainda assim não achar tudo isso completamente ridículo?

Se o filme aderisse ao ultrarealismo que as produções animadas atuais - mesmo as que envolvem fantasia - adotam, com certeza ninguém conseguiria engolir. Mas AS BICICLETAS DE BELLEVILLE possui um certo tom nostálgico que ultrapassa a mera caracterização dos cenários. Suas referências básicas são as animações clássicas dos anos dourados do cinema americanos, anos 30 e 40, em que o surrealismo rolava solto em muitas produções, como, por exemplo os geniais filmes de Max Fleischer (em que postes e objetos inanimados ganhavam vida própria), ou nas produções de Tex Avery. E é exatamente por isso que todas as aparentemente loucuras e absurdos de AS BICICLETAS DE BELLEVILLE são deliciosamente críveis.

E por falar em Max Fleischer, a seqüência inicial do filme, que mostra as Trigêmeas no auge do sucesso se apresentando em um teatro de revista poderia muito bem ter sido retirada de uma animação dele. Simplesmente fantástica.

Dos desenhos dos anos 30 e 40, o filme não reproduz apenas o estilo nonsense, mas também recria aquele clima não tão inocente das produções daquela época. O que muita gente não sabe, é que muitos dos desenhos (americanos) desse período não eram feitos para crianças, inclusive alguns protagonizados por grandes ícones como Pernalonga e cia. Era muito comum cenas um pouco mais sensuais ou frases de duplo sentido. O exemplo mais explícito disso é a Betty Boop, que sofreu duramente com a censura nos anos posteriores. AS BICICLETAS DE BELLEVILLE traz algumas cenas que nos remetem a isso, como na deliciosa seqüência inicial ou na cena em que Souza entra pela primeira vez no prédio onde as Trigêmeas moram. Mas, como nos filmes dos anos dourados, tais cenas não chegam a ser vulgares ou ofensivas. Ainda mais se levarmos em conta o que anda passando na televisão nos últimos tempos.

A caracterização da cidade de Belleville também é um show a parte. Claramente inspirada em Nova York, como aquela cidade, alterna cenários de grande glamour com outros de grande decadência. Chama a atenção também o fato de que seus habitantes são todos gordos, como são grande parte dos americanos...

AS BICICLETAS DE BELLEVILLEé um filme quase perfeito, nos seus mais diversos aspectos. Só teve uma coisinha bem pequenininha que me incomodou, justamente no fim da história. Não posso entrar em detalhes para não estragar o prazer de quem for assisti-lo. Só posso dizer que tive a ligeira impressão de que um desfecho um pouco positivista tentou se adentrar no clima surreal de todo o filme. E isso realmente me aborreceu. Pode ser apenas uma impressão minha. Não fosse por isso, seria, para mim, uma obra-prima.

Sinceramente, depois de assisti-lo, lamentei que AS BICICLETAS DE BELLEVILLE não tenha dividido com Procurando Nemo o Oscar de Melhor Animação, pois certamente merecia.

     

Direção e Roteiro:
Sylvain Chomet

Com as vozes de:
Betty Bonifassi, Lina Boudreault, Michèle Caucheteux, Jean-Claude Donda, Mari-Lou Gauthier, Charles Linton, Michel Robin, Monica Viegas

Cotação: