Batman Begins
(EUA, 2005)




Quando um amigo respondeu me disse que "eu era suspeito para falar" que BATMAN BEGINS era uma grande adaptação de quadrinhos, eu resolvi assistir o filme novamente para ter certeza antes de escrever sobre ele. Cheguei à conclusão que exatamente por ser um ávido leitor de HQs, acabo sendo ainda mais exigente com esse tipo de cinema. Por isso não, BATMAN BEGINS não é uma grande adaptação dos quadrinhos. É um grande filme, ponto. Mas também é, na minha humilde opinião, a segunda melhor adaptação de quadrinhos já feita para o cinema. O primeiro lugar ainda pertence a SUPERMAN: O FILME de 1978, dirigido por Richard Donner. Mas esse trabalho do diretor Christopher Nolan certamente é o recordista na prova de "filme que me fez chorar mais rápido". Espero que isso mude ano que vem e Bryan Singer nos traga o filme definitivo do Homem de Aço.

Como o título já diz, o filme conta a história da origem do Cavaleiro das Trevas. Aqui, um herói ainda sem muita experiência, um exímio lutador mas que ainda falta a ele uma maior capacidade de raciocínio e de investigação. Ao invés de repetir o grande erro de Tim Burton e Joel Schumacher, que fizeram filmes contando as origens dos vilões sem se preocupar muito com a do herói, o diretor investe em em seu protagonista para mostrar o Batman em si apenas na segunda metade do filme. Uma tática que já tinha se mostrado certeira em HOMEM-ARANHA e, claro, SUPERMAN. Mas Nolan mostra-se um exímio diretor não apenas na narrativa mas também na fotografia e direção de arte realistas, e nos efeitos visuais. Esses se misturam de forma genial onde perde-se a noção de o que é efeito e o que é realidade, dando a impressão de que estamos vendo um filme livre de tal ferramenta. Mas não é assim que todo grande diretor usa?

Um comentário que ouvi nas conversas entre os fãs de quadrinhos é que quando se tem um elenco grandioso é porque o estúdio quer esconder a pouca substância com aparência. Tudo bem que um bom elenco às vezes ajuda muito um filme ruim, mas aqui todos os atores servem a um propósito maior. Não há exageros para tentar roubar a cena. Há sim, personagens bens construídos e carismáticos que constróem uma grande aventura. Desde o preocupado Alfred de Michael Caine ao perverso Jonathan Crane de Cillian Murphy, uma boa surpresa como o Espantalho, com doses precisas de frieza e loucura. O Ra's Al Ghul de Ken Watanabe mostra uma impassividade assustadora, assim como seus momentos de fúria e ainda um toque de nobreza, que ele já tinha mostrado como uma das poucas qualidades de O ÚLTIMO SAMURAI. Morgan Freeman e Rutger Hauer se divertem ao máximo com seus pequenos papéis. O difícil vai ser reunir todos esses profissionais para um próximo filme já que Christian Bale é o único com um contrato assinado com o estúdio para uma continuação.

O que nos leva a Bale, uma escolha inspirada para o protagonista. Não sei se foi ao ver a performance dele em SHAFT ou PSICOPATA AMERICANO que me levou a acreditar que ele seria perfeito para o papel. Seu Bruce Wayne consegue ter todas as camadas necessárias da personagem. Esteja ele se comportando como o playboy, como o homem com uma missão ou como o Batman em si. Vê-se nos olhos de Bale, em seu jeito contido e humor sarcástico, que existe muito mais ali que um mero herdeiro. E é impressionante vê-lo na forma física que conseguiu em pouco mais de 60 dias após o término das filmagens de O OPERÁRIO, onde o ator perdeu 30 kg para o papel de um homem com insônia há quase um ano (clique aqui para conferir o look do rapaz naquele filme). Depois, ele ganhou 50 kg para viver o herói da DC Comics.

Foi bom entrarmos no assunto dos olhos porque esta é uma grande vantagem que uma versão cinematográfica do Batman tem sobre o Homem-Aranha, por exemplo. Repare: o papel mais ingrato em X-MEN é o de James Marsden, o Ciclope. Nenhum dos outros mutantes usa uma máscara no filme. O Superman não usa uma máscara mas usa apenas um par de óculos para esconder sua identidade. Ele se preocupa em disfarçar justamente seus olhos! Porque é quando conseguimos ver os olhos do herói que temos acesso a seus verdadeiros sentimentos, a janela para a alma. Repare como é difícil para Marsden mostrar sua tristeza durante o final de X-MEN 2. Ou como nos momentos mais vitais do filme, Peter Parker abre mão de sua identidade secreta em HOMEM-ARANHA 2, cuja máscara cobre completamente suas feições. Tudo isso para que o espectador tenha acesso ao ser humano por baixo da fantasia, ao invés de um simples boneco feito por computação gráfica. E o Batman de Bale, mesmo coberto da cabeça aos pés com uma roupa predominantemente preta, consegue revelar toda sua profundidade. Um homem à procura de, não apenas justiça, mas da aprovação de seus falecidos pais, de sua nova figura paterna (o mordomo Alfred) e, claro, de sua amada Rachel Dawes, a subestimada Katie Holmes. E é exatamente por isso (marque com o mouse para ler caso queira saber algo que vai estragar uma surpresa do filme, mas se você já viu tudo bem) que... Bruce revela sua identidade a ela. Não pela fama ou pelo reconhecimento, mas pela necessidade de ter alguém que compreenda o que ele faz, principalmente nos minutos que podem ser os últimos de sua vida. Segredos são fardos e Rachel é a mulher que ele ama. Como não dividir algo tão grande com ela? Principalmente alguém que lhe ensinou tanto sobre a diferença entre justiça e vingança?

Com toda a mídia em cima da futura sra. Tom Cruise, é realmente fácil subestimar Katie Holmes. É dela o papel mais ingrato, o da namoradinha do herói, certamente uma imposição do estúdio que acredita que é realmente necessário haver um par romântico. Mas até nisso o roteiro é bem feito, dando um significado especial para o papel e até mesmo algumas grandes cenas. Ingrato, mas feito de forma que torna-se vital para o filme e por uma atriz que deixa de ser apenas promissora para mostrar-se até bem competente (prova disso é o pequeno DO JEITO QUE ELA É). Tal parte certamente deve ter sido reescrito várias vezes por Nolan. Por mais que tenha sido vantajoso ter um fã de quadrinhos como David S. Goyer como co-roteirista, costuma faltar em seus roteiros (especialmente na trilogia BLADE) uma profundidade em seus personagens.

As cenas de ação podem ter sido editadas um pouco rápidas demais para o meu gosto mas no caso serve a um propósito: mostrar que as técnicas de luta do Cavaleiro das Trevas são rápidas e eficientes, sem firulas. Afinal, já disse Ducard (o grande Liam Neeson): "isso não é uma dança". É bom ver heróis que urram de dor ou em fúria, que desferem socos e chutes eficientes e não simples acrobacias. Isso não diminui filmes como O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS, HERÓI, O TIGRE E O DRAGÃO ou mesmo o primeiro MATRIX. Mas que fiquem por lá.

A música de Hans Zimmer e James Newton Howard é bastante eficiente. É uma pena que os arranjos tenham tanto dos repetitivos tambores e sintetizadores ao invés de algo mais sutil. É sempre forte, pesado, que cai bem para dar clima ao filme mas é meio cansativo se ouvido separadamente. Não é ruim mas o Batman ainda precisa de uma música tema como a de SUPERMAN, automaticamente identificável, que faça o público esquecer do velho "tã-nã-nã-nã-nã-nã-nã-nã-nã-nã-nã-nã-nã... Batman!" Danny Elfman passou bem perto com o BATMAN de Tim Burton, mas não o suficiente.

Para quem acha que a Marvel Comics realmente tem sido mais feliz em suas adaptações cinematográficas, espero o dia em que ela terá nas mãos um filme tão completo quando BATMAN BEGINS. Tudo bem, a franquia HOMEM-ARANHA é bem sólida. Mas a franquia X-MEN ainda não alcançou seu verdadeiro potencial (e provavelmente nem vai). DEMOLIDOR e O JUSTICEIRO são bem decepcionantes. ELEKTRA eu não vi mas é considerado o maior erro da editora. Na trilogia BLADE, apenas o segundo diverte e mesmo assim por puro talento de Guillermo Del Toro. QUARTETO FANTÁSTICO até agora só andou com o pé esquerdo. E HULK, a melhor de suas adaptações, é altamente subestimado. Claro, a DC também tem sua parcela de culpa como o insípido CONSTANTINE ou os imperdoáveis MULHER GATO, BATMAN ETERNAMENTE e BATMAN & ROBIN. Mas vai ser difícil alguém superar o trabalho de Christopher Nolan. Mas que venha Bryan Singer e seu SUPERMAN RETURNS para provar que eu estou errado.

     

Direção:
Christopher Nolan

Com:
Christian Bale, Michael Caine, Liam Neeson, Gary Oldman, Katie Holmes, Rutger Hauer, Morgan Freeman, Ken Watanabe

Cotação: