Amor Eterno Amor
(Innocence, Austrália/Bélgica, 2000)
Por: Galactus

Acordei com aquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca, me perguntando quem foi o idiota que chupou um cabo de guarda-chuva para saber como era o gosto, e fui andando calado até o cinema, ver a sessão para a imprensa de Amor Eterno Amor. Dei de cara com um portão fechado e a nítida impressão de que meu cérebro, que ainda estava acordando, podia ter me enganado e me levado para o lugar errado.

Mas o cérebro funciona muito melhor quando recebe o estímulo adequado, por isso fui até a padaria da esquina e comprei uma Coca-Cola e um delicioso pão de queijo. Não sei o que eles fazem nos pães de queijo das padarias que os tornam tão mais gostosos. Deve ser por causa daqueles fornos industriais enormes que eles usam para assar mil pães de uma só vez.

Enfim voltei para o cinema e esperei mais um pouco até que um colega de profissão apareceu. A moça veio e abriu o portão. Éramos três ali naquela manhã fria. Entrar no cinema vazio sem pagar ingresso e antes de almoçar é uma sensação muito esquisita. Me pergunto quanto tempo vai levar até eu me acostumar com isso.

O mais divertido de tudo é que eu tinha certeza absoluta que ia ver outro filme. O mesmo cérebro adormecido havia me convencido de que meu chefe me havia incumbido de assistir o finlandês O Homem Sem Passado. Eu já estava imaginando como iria abrir a resenha quando os letreiros na telona começaram a me convencer de que eu estava no lado errado do mundo. O sol estava quente naquelas imagens que diziam "South Australian" alguma coisa.

Com o tempo fui me adaptando à nova realidade que se apresentava diante da tela, e foi ótimo descobrir que a curiosidade ainda torna os filmes mais interessantes. Ver um filme sem fazer a menor idéia do que se trata já é engraçado. Ver um filme pensando que era outro é mais divertido ainda. Na TV a cabo eu faço isso direto, mas no cinema, era a primeira vez.

O filme foi começando e fui vendo que havia uma história de amor envolvida. Não me assusto mais com essas coisas. Quando era jovem achava que existiam milhares de tipos de história, e que por isso era perda de tempo fazer mais um filme sobre amor. Mas um homem chamado J. R. R. Tolkien me ensinou que todas as histórias humanas são realmente sobre o mesmo assunto: morte.

E quem não sabe o que amor tem a ver com a morte, recomendo que confira Amor Eterno Amor. O título é apavorante, eu sei, mas o nome original é bem mais digno: Inocência.

Acreditem. Amor Eterno Amor não é o seu filminho água-com-açúcar hollywoodiano ou brasileiro, desses que invadem a TV a cabo todo dia. Eu não diria isso se não fosse verdade.

Para começar, a temática não é das mais comuns. Um casal de jovens, apaixonado na época da II Guerra Mundial, se reencontra 50 anos depois. Ambos na casa dos 70 ou 80 anos, a mulher casada, o homem viúvo, e de repente eles voltam a se amar.

O que parecia tão simples se torna um grande problema pelo simples fato de os dois serem velhos. A sociedade se apavora com o fato. O marido da mulher, por exemplo, sequer acredita nela quando ela diz que fez sexo com outro homem. E ambos estão velhos demais para, sei lá, largar tudo e se casar e ir morar em outro lugar, que é o que costuma acontecer nos filmes quando os personagens são mais jovens.

Mas esses não. Eles são velhos. Eles vão morrer logo logo. São todos sábios, controlados, pacíficos, maduros. E isso não deixa o filme ficar chato em momento algum. Pelo contrário: os atores, todos desconhecidos do grande público, dão um show de interpretação, e fazem de uma trama tão banal um debate sociológico muito mais interessante, envolvendo o preconceito contra os idosos, o preconceito contra o próprio amor, religião, morte, e outras coisas.

Enfim, não é nenhum clássico do cinema contemporâneo, mas ninguém deve se arrepender de assisti-lo. É para deixar pensando mesmo.

Fora isso posso ressaltar a trilha sonora, bem diferente do esquemão a que estamos acostumados, e a fotografia, que parece careta na maior parte do filme, mas que pontua a trama com cenas lindíssimas em Super-8, provando que não é só para fazer video clipes e filmes de skate que essa bitola ainda está viva. A textura funciona a serviço da trama, e não dos delírios loucos de um videoclipeiro ensandecido.

O filme é uma co-produção belga e australiana, filmado por um diretor holandês. Paul Cox foi o mesmo que dirigiu a biografia de Vincent Van Gogh, Vincent, em 1987. É bom saber que há cada vez mais cinema de qualidade na Austrália. Uma indústria cinematográfica de verdade, e não uma seqüência de êxitos exóticos que não vão durar nada. É esse exemplo que eu acredito que o cinema brasileiro deveria seguir, e não o cinema iraniano, como querem meus detratores.

Estranho o filme ter demorado tanto tempo para chegar no Brasil, tendo sido lançado em 2000. Paul Cox já fez um filme depois desse, lançado em 2001, baseado nos diários pessoais do lendário bailarino russo Vaclav Nijinsky. Quem sabo no ano que vem a gente o veja por aqui...

     

Direção:
Paul Cox

Com:
Charles Tingwell, Julia Blake, Kenny Aernouts, Kristien Van Pellicom

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